O trabalho está a mudar mais depressa do que as empresas
A transformação do mundo do trabalho deixou de ser apenas uma tendência para passar a ser uma realidade concreta nas organizações europeias. Entre a aceleração tecnológica, a pressão económica e a mudança das expectativas dos colaboradores, as empresas enfrentam hoje um dos maiores desafios das últimas décadas: adaptar-se a uma nova relação entre pessoas, competências e tecnologia.
O relatório “300.000 Voices”, desenvolvido pelo Oliver Wyman Forum, mostra uma Europa em plena transição. Apesar de mercados como Espanha registarem cerca de 68% de colaboradores satisfeitos, começam a surgir sinais claros de desgaste nos modelos tradicionais de trabalho e liderança.
Ao mesmo tempo, as prioridades dos profissionais estão a mudar. A remuneração e os benefícios continuam a ser o principal fator de insatisfação, mas a realização pessoal passou rapidamente para o centro das preocupações dos colaboradores, subindo da oitava para a segunda posição entre os fatores mais relevantes desde 2023. O equilíbrio entre vida pessoal e profissional continua igualmente entre as três prioridades mais importantes para os profissionais europeus.
Esta transformação está também a ser acelerada pela inteligência artificial, que está a entrar de forma cada vez mais rápida no quotidiano das organizações e a redefinir processos, funções e modelos de produtividade.
A pressão para evoluir nunca foi tão elevada
Num mercado em constante transformação, a necessidade de desenvolver novas competências tornou-se uma prioridade urgente para empresas e profissionais.
A velocidade da mudança ajuda a explicar esta pressão crescente. Nos últimos três anos, cerca de um terço das competências exigidas para a maioria das funções alterou-se significativamente. Em paralelo, a procura por formação duplicou nos últimos cinco anos, atravessando diferentes gerações e setores de atividade.
No entanto, muitas organizações continuam sem conseguir acompanhar esta evolução. Dois em cada três colaboradores consideram que não estão a desenvolver as competências necessárias para responder às exigências do mercado atual, revelando uma discrepância crescente entre aquilo que os profissionais procuram aprender e aquilo que as empresas efetivamente oferecem.
Enquanto os colaboradores demonstram maior interesse em competências técnicas, interfuncionais e de liderança, muitas organizações continuam focadas em formações mais tradicionais ou operacionais. Em países como Itália, França e Reino Unido, esta perceção de insuficiência é ainda mais evidente, refletindo uma menor confiança dos profissionais na sua capacidade de adquirir as competências necessárias para o futuro.
Inteligência artificial: entre o entusiasmo e a dificuldade de execução
A inteligência artificial tornou-se um dos temas centrais da transformação empresarial. A maioria dos executivos reconhece o seu potencial estratégico e o investimento continua a acelerar em praticamente todos os setores. Ainda assim, a distância entre intenção e impacto continua a ser significativa.
A adoção da IA também não acontece ao mesmo ritmo entre países, setores ou gerações. Em Espanha, por exemplo, 37% dos colaboradores utilizam IA pelo menos três vezes por semana e 14% fazem-no diariamente, valores acima da média europeia. Além disso, 44% dos colaboradores espanhóis acreditam que a IA criará novas oportunidades de emprego, refletindo níveis de confiança superiores aos registados em mercados como Alemanha, Itália ou França.
Os colaboradores mais jovens demonstram maior facilidade de adaptação e uma relação mais positiva com estas tecnologias. A Geração Z tem 1,7 vezes mais probabilidade de frequentar formações em IA, o dobro da probabilidade de identificar melhorias nas suas competências e 2,3 vezes mais probabilidade de afirmar que a IA melhora o seu desempenho profissional.
Ainda assim, a Europa continua a avançar a um ritmo mais lento do que outras regiões. Apenas 20% dos colaboradores europeus afirmam confiar plenamente na IA, cerca de metade do valor registado na Ásia. Apesar disso, a região registou um crescimento anual de 13% na adoção de IA no trabalho entre 2024 e 2025, demonstrando que a transformação continua a acelerar.
A liderança tornou-se o verdadeiro fator crítico
Apesar da crescente importância da tecnologia, o principal desafio continua a ser humano. A liderança emerge hoje como um dos maiores pontos de tensão dentro das organizações, especialmente num contexto marcado pela mudança constante e pela necessidade de adaptação rápida.
A percentagem de colaboradores que identifica a liderança como uma das principais fontes de insatisfação aumentou quase 60% desde 2023. Ao mesmo tempo, apenas cerca de 31% considera que os seus líderes demonstram inteligência emocional de forma consistente, apesar de os colaboradores que percecionam os seus líderes como emocionalmente inteligentes terem quase cinco vezes mais probabilidade de estar satisfeitos com eles.
Estes dados refletem uma desconexão crescente entre aquilo que os colaboradores esperam das lideranças e aquilo que muitas organizações continuam a oferecer. Num ambiente cada vez mais marcado pela transformação tecnológica, os profissionais valorizam líderes capazes de comunicar com clareza, acompanhar a mudança e criar relações de confiança.
À medida que a IA redefine funções, competências e modelos operacionais, as empresas enfrentam uma questão fundamental: como construir organizações onde humanos e tecnologia trabalham de forma complementar, criando valor real e sustentável.
O futuro do trabalho já começou, e as organizações que conseguirem equilibrar inovação, competências e liderança terão uma vantagem decisiva nos próximos anos.